Recém nascida.
Para Letícia, do Princesa do Tédio, minha querida amiga secreta. Um texto intuitivo, não sei explicar. Mas escrevi escutando esta música. E escrevi pra você!
Abri as caixas, que são grandes, e deixei que meu quarto se esvaziasse de lembranças que já não me levam pra lugar algum. Voltei alguns minutos e quando vi havia voltado meses, como uma fita antiga que a gente bota pra trás – e assiste de novo, e não gosta ou vê que já não serve e então a gente simplesmente joga a fita na lata do lixo. No começo foi difícil. Rasguei papéis: em branco ou preenchidos de palavras vãs, vazias, impróprias. As fotos eu também joguei fora, e não precisei rasgá-las, como fazem aqueles que não querem sentir remorso por tentarem se desfazer de alguma coisa que ainda faz parte deles. Elas já estavam amareladas e manchadas por uma história que já não me pertence. Desfiz promessas e as deixei correr por entre os dedos. Sequei antigas lágrimas. Refiz espaços em branco, frestas que não conseguia preencher. Enxuguei meus olhos embaçados. Lacrei as caixas e me desfiz de todo o peso. Agora está tudo novamente em branco, como uma folha branca pronta pra se tornar qualquer coisa, qualquer uma. E os meus olhos já estão livres de buscar coisas que não existem mais: livres para ver o mundo, pra enxergar a chuva escorrer pela janela, pra enxergar o sol por entre os galhos da árvore, pra ver sorrisos e pra ver nascer o frescor das coisas novas. Chego a escutar uma música nova e quando eu não escuto nada, não tenho medo do silêncio. Há espaços. Não sinto necessidade de ser preenchida de alguma coisa e sei muito bem lidar com o vazio, que é breve e de que preciso. As cortinas leves do meu quarto, se esvoaçam com o vento. E até ele parece trazer novidade. Estou usando o vestido branco que você não gostava que eu usasse. Pintei as unhas de vermelho. Soltei os cabelos e descobri que são maiores do que eu pensava. Descobri que sei dançar. Descobri que gosto de andar descalça e que não tenho mais medo do escuro. Descobri que não me conhecia. E não sei se a cortina consegue ser mais leve do que eu me sinto, agora, sem ter a necessidade de ser a personagem que você queria que eu fosse – a sua bonequinha de luxo. E cada novo dia vai trazer esta tentativa de descobrir, sozinha, aquela que eu sou e que me tornei sem a sombra das suas expectativas. Cada minuto será tratado com cuidado quase maternal. E cada dia será assim, como hoje, o primeiro dia de toda uma vida. Feliz Ano Novo, digo, sorrindo, para a moça bonita do espelho.
Revelação do Amigo Secreto, terceira edição.


Se eu disser que me identifiquei por completa, você acredita? Porque foi MUITO o que aconteceu comigo de agosto para setembro. Sem dispôr de um Reveillon, foi ali que me reinventei. Adorei
Bjs, tudo de bom para você em 2012!