A bolota azul brilhava no escuro do quarto da galera, na Chácara em Lindóia. A chácara pertence à família Rosa (que é uma rosa) e nós todos fomos convidados. No quarto-albergue, estavam Luiz (o dentista), Maurício (o professor), Valéria (a fada ou seria bruxinha?), Mirelli (a anfitriã e a única que trabalha hahahah), Leandro (o pai), Léozinho (o filho) e eu (a Samara). Quando todo este povo chegou eu já estava dormindo. Acordei no dia seguinte com os roncos todos – a sinfonia – e sem saber quem era quem. Um monte de lençóis, e pernas, e braços e coisas. E tinha a bolota azul. Mais pra frente, já no auge da intimidade, assim na quarta noite, o Luiz diria: pode desligar esta bolota azul? Eu disse que ahhhh, ela é tão linda! E ele respondeu assim:
_ É porque ela não está de frente pra você!!! Passa aqui o chinelo.
Mas ela se conservou e se tornou o ícone do nosso feriado! Depois de algumas horas de convivência, descobri que a Val lia tarô (e que ela tinha levado o baralho, eba!). Descobri que o Maurício tinha mil e uma utilidades, inclusive a de fazer salpicão e cortar o pimentão bem fininho. Descobri que o Luiz é um figuraça e totalmente carismático. Foi chegando: Oi, tudo bem? (beijos) Eu sou o Luiz. E descobri que o Léozinho tinha se apaixonado por mim e virou minha sombrinha, porque onde eu ia ele também ia atrás! Totalmente esperto e inteligente. Quando perguntado se ele saberia cuidar de mim, respondeu: “sei sim, eu sou um HOMEM esperto”. Se segurem meninas, porque o dono destes olhos verdes há de se tornar um homem tão esperto quanto lindo! Todo bonzinho, não quis jogar o copo de água no tio Luiz, quando o Tio Maurício pediu (ahahahah).

As pessoas estranharam o fato de eu querer clicar tudo, o frango sendo escalpelado (e belamente escalpelado), o pimentão, a cenoura e a idéia da cebola que não precisou ser cortada (ainda bem, porque ia sobrar pra mim). As folhas das árvores que se fechavam à noite. A quaresmeira. A árvore que não era pinheiro, mas soltava pinha (sim, esta pérola foi minha). Pessoas fritando na piscina e meu couro cabeludo rosa! A bela mesa azul posta para a ceia do Reveillon. Os fogos e os passeios…


Tenho um amigo que diz que estas coisas devem ficar em nossa memória, e desaconselha qualquer tipo de apego material. Mas eu vou na contramão da modernidade e registro TUDO em fotos e textos. Depois, posso compartilhar, o que é mais legal ainda!
Apesar da disputa acirradíssima por lavar a louça, tinha espaço pra todos! E enquanto eu lavava, pensava na vida. O Luiz disse: Tá tão quietinha, Mel! E eu respondia que estava pensando no Tico e no Teco (Marcelo e Jefferson), os dois amigos que esperavam uma ligação minha, em São Paulo. E na Mi, que estava trabalhando e não tinha me acordado de manhã, meio porque estava com dó de me acordar tão cedo (como se eu não levantasse ás quatro horas todos os dias rs) e meio porque queria que eu aproveitasse melhor o passeio. Quando chegou, no final da tarde do primeiro dia (quinta-feira), eu já estava na maior intimidade com os três amigos de seu (lindo) irmão!
Fomos dormir, na quinta-feira à noite, já carregados de sono, mas parece que quando um punhado de gente se junta em um quarto escuro, só sai bobagem!!! Nós simplesmente não conseguimos dormir e ficamos conversando, falando bobagens, rindo e rindo e rindo. Foi quando o Luiz quis dar uma chinelada na bolota azul e o Maurício reclamou para a Valéria que a sua traquéia (????) estava doendo. A pobre moça, que já estava vendo o rosto de Orfeu (é orfeu?), teve o trabalho de se levantar e ir até ele para olhar a sua traquéia ferida, mas levou um susto, porque quando chegou perto ele começou a LATIR! Luiz segurou o riso com a almofada – o riso Mutlley, que eu conseguia escutar, sem conseguir conter meu próprio. Ainda que eu estivesse me borrando de medo porque diziam que o Maurício era sonâmbulo e eu tenho medo de sonâmbulos. Tenho medo de acordar e ele estar ali, olhando para a minha cara. Cobri a cabeça e me virei para a parede. E isso tudo foi BEM DEPOIS da conversa que tivemos ao redor da mesa com o Edinho e a Lú, sobre ESPÍRITOS e COISAS DO ALÉM. Claro! Chácara + Mato + Silêncio + Pessoas sempre puxa este assunto que pode ser beeeem manjado, mas vai sempre nos deixar com aquela pontinha de medo e eu CONFESSO, que estava com tanto medo que não quis ser a última a ficar para a fora. Saí correndo apagando as luzes e acabei trancando a cachorra na despensa (sim). Ela, claro, se portou direitinho e ninguém percebeu. A sua outra companheira provavelmente quis me agradecer por uma noite de trégua (hahaha), porque também não reclamou. Ficou sozinha do lado de fora e pelo jeito é mais corajosa do que eu, porque não escutamos um único uivo. No dia seguinte, quando a Lú foi abrir a porta da despensa, uma coisa grande e claustrofóbica (a LUSA, pastor alemão fêmea) saiu correndo para fora num ZÁS só.

A LUSA foi encontrada ao lado do estádio da Portuguesa, quando a Mi e seu irmão Bó foram comprar ingressos para um determinado jogo do São Paulo. Ela comia pedrinhas e era um filhote. Eles apenas se entreolharam. Foram até ela, recolheram-na e a levaram para casa. Hoje ela vive feliz, carente e ciumenta, na chácara da família em Lindóia (você não consegue fazer carinho só na cachorrinha menor, porque ela vai lá e pede também, puxando sua mão com o focinho). Ela e a LINDA, a cachorrinha menor, gostam de ficar embaixo da mesa curtindo a sombrinha e o chão geladinho e também a nossa companhia.
Na outra noite, eu quis olhar o céu e cismei de me sentar nas cadeiras ali no meio da grama. Tive companhia. Ficamos conversando, eu, Mirelli, Edinho e Luiz, enquanto eu tentava decifrar o que era aquela coisa preta que havia caído de uma árvore e já com as pernas encolhidas por causa do LAGARTO, que mora ali no terreno. A coisa preta era só um MORCEGO!!! Que não contente em ser morcego, feio, estranho e bat-medonho, também curte ficar fazendo barulhinhos nas árvores.
Fomos dormir e eu estava apavorada porque o Maurício estava com umas idéias de puxar o meu pé (ele estava dormindo perto deles). Já deitados, com a luz apagada (apenas a bolota azul), Luiz e Maurício ficaram conversando, enquanto eu estava sentada. Queria apenas dizer que eu não estava com sono. Quando eles perceberam a minha presença, ali no escuro, me chamaram de
SAMARA (O Grito).
Eu boa-noitei e me deitei. Mas pensei assim. Se este homem puxar o meu pé eu vou dar um berro terrível como os berros que eu estava dando lá fora enquanto estávamos jogando aquele jogo dos tapas (baralho). E esta moça que está dormindo ao meu lado vai acordar BRAVA (como eu acordaria) e ASSUSTADA. Por este motivo, levantei de volta. Assim que me levantei (sem o uso dos braços, num fôlego só, porque fiz aulas de expressao corporal, que claro que me serviram de alguma coisa…) o Luiz desatou a rir e o Maurício foi quem se borrou de medo.
LUIZ: HAHAHAHAHAHAAHAHAHAHAHAHAHAHA!
MAURÍCIO: Você cuida desta mulher, pelo amor de Deus!
Jogos de baralho nunca foram meu forte. Sou meio azar no jogo e sorte no amor. Mas existe um jogo que é meu fraco. Você vai colocando as cartas na mesa e cantando os números: 1, 2, 3, 4 e assim por diante. Se o número que você cantou COINCIDIR com a carta que você colocou na mesa, você deve dar um tapa sobre as cartas rapidamente. O último que estapear, fica com TODAS as cartas. E geralmente, este último elemento
ERA EU.
Não contente na lerdeza de ser a última, eu também BERRAVA, como se tivesse visto uma barata, uma cobra, a Samara ou o Maurício sonâmbulo caminhando ao redor da piscina. Todos pareciam se divertir com o meu berro que era (juro) natural e automático.
Fiquei rouca.

O TARÔ
Sentei-me com a Val na mesa estrategicamente posta no final da casa. Era uma sessão individual e eu não sei como ela ainda tinha energias depois de ter lido para tanta gente. Eu mal me sentei e a moça já começou a falar coisas sobre a minha vida, como se eu fosse um depósito de coisas e como se ela estivesse vendo tudo o que havia dentro de mim. O trabalho, a falta de estímulo, de mérito, como me sinto desvalorizada.
DO MENININHO!!!!!!!
Meu pai superprotetor. Minha mãe libertária. Visualizar coisas boas. Os esmaltes vermelhos, o perfume marcante, a nova mulher. Usar sabonete de limão. Guardar dinheiro, soa tão óbvio, Melissa, mas você não está fazendo.
Anotei tudo!
SEU ZEZÉ

O Seu Zezé um velhinho fofo que havia acabado de perder sua “companheirona”. A família o embebe de muito carinho e nos levou até lá para conhecê-lo. Dono de um bar todo colorido e um tanto retrô, o Seu Zezé também tira leite da vaca, faz cintos de couro, faz de tudo. Enquanto ele ficou conversando com a Mi, Edinho e Lú, eu tentava tirar algumas fotos discretas, sem incomodá-lo. Fotos do bar, da janela que entrava na parte de trás e trazia um belo contra-luz. No gato sobre a cadeira. Meti a mão no formigueiro que havia no parapeito da janela, ao clicar a fazenda afora. Será sorte? Tomara!
Fomos caminhar em uma rua de terra, ali pra cima. Em alguns minutos, havíamos dito a palavra “COBRAS” mais de cinco vezes. Isso porque havia um barril escuro, ali ao lado do corcel amarelo (corcel?) e neste barril estavam APENAS 5 cascavéis e 5 jararacucús.

A minha avó de Joinville dizia que esta cobra, a jararacuçú, era venenosíssima. Quando eu perguntava se ela era venenosa, minha avó respondia assim:
_ UHHHHHH!!!!!
PASSEIOS
Vez em quando pegávamos o carro e íamos passear em Águas de Lindóia e Serra Negra. A praça de Águas vem no melhor estilo deja-vu, porque estive lá quando era adolescente. Enquanto a Tia Mi e o Papai Leandro caminhavam ao lado do Léozinho (que dirigia seu carrinho colorido, atração especial do lugar), a galera Luiz/Maurício/Val e Mel vinha vindo atrás. E era o tiozinho que parecia o Tony Ramos porque tinha tufos de pêlos no peito (me fizeram tirar fotos dele). Era o lagão atrás e as minhas memórias. O ônibus de viagem que trouxe a galera da igreja, no passado. A minha paixão platônica por um cara de lá, que começou naquela viagem… as boas memórias têm um perfume bom e atrativo. Depois de caminhar ao redor do lago, tomamos água de côco e comemos milho. E pedimos para uma senhora tirar uma foto nossa. A mulher era simples e mal conseguia segurar a câmera. A foto saiu assim…

Em Serra nossa atração preferida foi o centro. Fomos caminhar, comprar pães, ver gente e ver as coisas. Me meti no meio do presépio, no melhor estilho onde está wally. Na volta, novamente: ao lado da amiga Mi, que dirigia calmamente pela estrada. Encontramos o outro carro com o resto do pessoal na frente da igreja de São Roque.
Chegando em casa, comemos cachorro quente, lambuzando os dedos. Na sessão comida também teve o famoso salpicão e a mesa recheadíssima da ceia do ano novo. Teve rondelle ao molho branco e também ao sugo. Teve bolo de fubá com recheio de goiabada (mérito do Maurício hahahah).
Na virada, nos abraçamos e brindamos. Eu tirei a foto perfeita. Estávamos ali, acolhidos pela Nossa Senhora (na gruta), pelos orixás (é isso?) da galera cuja religião aprendi a respeitar e admirar e pelo Cristinho, de braços abertos na entrada da chácara (o que apelidou a “Morada do Cristinho). Não apenas pensei em coisas boas.
TIVE CERTEZA.

Eu não sabia se olhava para a LUA, IMENSA NO CÉU, ou se olhava para os fogos. Depois disso, fomos caminhar ao redor do lago, na rua de baixo. A lua brilhava sobre as águas. Cada pessoa que passava por nós, hospitaleira e simples, nos desejava sorrindo:
FELIZ ANO NOVO!